"Embora os postais
ilustrados e a literatura turística tenham mitificado as lavadeiras do Mondego
e procurado associar a sua lide à iconografia académica masculina, é sabido que
mesmo cantando e tagarelando durante o trabalho, a vida de lavadeira fluvial
era muito dura. Ficava-se com as pernas e mãos na água gelada do inverno
durante horas. Os panos eram esfregados diretamente sobre lajes de calcário,
fricção que provocava desgaste na pele e ferimentos. O antigo sabão macaco
caseiro era pouco espumoso. O torcer a roupa, o por a corar sobre o areal e o
fazer a barrela eram tarefas muito violentas. Integravam a panóplia de
trabalhos da lavadeira o carrego de cestos e celhas, a recolha de trouxas de
roupa suja pelas freguesas e a devolução das trouxas com a roupa lavada pelo
rol. Nos arredores de Lisboa as lavadeiras vinham trazer a roupa lavada em
carroças, mas na maior parte das localidades vinham de barco (as do Mondego
andavam acima e abaixo nas barcas serranas) e cirandavam pelas ruas da cidade
com as trouxas de pano à cabeça. Ainda vi resíduos deste viver em 1985 e não
tenho nenhuma lamúria romântica a registar. Era demasiado violento para se
poder romantizar. Na atualidade há grupos folclóricos que reconstituem este
tipo de atividades com fins pedagógicos e de partilha de conhecimento com a
comunidade escolar. A iniciativa é de elogiar. Vale a pena saber como se fazia
uma barrela de branqueamento da roupa antes da era da lixívia ou perceber como
era fabricado o sabão caseiro."


















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