quarta-feira, 1 de abril de 2015

Pai e Mãe - Saudade é o amor que fica

Quando cheguei ao hospital para tentar ver o meu pai ainda com vida, já não consegui, não sei explicar o
sentimento, foi uma mistura de impotência, tristeza, amargura e fraqueza que me consumiu, a notícia era esperada mas nunca pensei eu fosse tão rápida ao ponto de não lhe poder dar um último beijo em vida. Se o que me pediu e tentarei cumprir com maior ou menor dificuldade. Sinceramente não desejo isto a
ninguém,por mais que eu saiba que é uma realidade que todos um dia vão ter enfrentar.
Embora não pareça sou uma pessoa muito fechada ao lidar com meus problemas, acho que eles são meus e ninguém precisa sofrer comigo, mas nesse episódio, também aprendi que é preciso dividir a dor com as pessoas que amamos, pois da mesma forma que elas nos querem para a alegria, elas também estão ali para o abraço apertado, pela palavras amigas e pelo olhar carinhoso. Obrigado a todos que me apoiaram de uma maneira ou de outra.
Fica aqui a minha forma de despedida e a certeza de um novo recomeço para nós e para ele. Unidos sempre, mas de forma diferente.
Pai, ou carinhosamente Neves
Dessa vez fui quem não usou aquele ditado popular que devemos falar em vida, já que depois pode ser tarde demais…
 Sei que não vou ter resposta tua, mas também sei que sabes como sou e como penso mesmo do meu jeito mais frontal e por vezes desconcertante mas sou assim .
 Eu entendia aquela tua cara de desilusão com a vida, tentava contrariar-te por vezes mas era simplesmente para reagires e continuares sempre a lutar pela vida.
Nunca te abandonei mesmo após a morte da mãe, quanto tiveste o AVC e depois quando te detetaram cancro, só não consegui prolongar-te mais a vida, mas estavas já em muito sofrimento físico e psicológico. Não me queixo de andar contigo ao colo, de ter de te dar banho, alimentar, vestir-te, de andar quase diariamente nas urgências contigo.
Foi desgastante, sabes isso muito bem, cheguei a estar desesperado e esgotado mas sempre pronto para voltar a fazer tudo e foi assim nos últimos meses.
A nossa vida nunca foi calma, nem tranquila devido ao que sabemos, mas sempre juntos tentamos ter uma vida estável.
A única coisa que não consigo entender é o motivo de em menos de dois anos o pai e a mãe terem
falecido de cancro, isso revolta-me. Não consegui adiar o vosso destino, mas estou de consciência tranquila porque enfrentei tudo e todos para vos dar a melhor qualidade de vida e o menor sofrimento possível. Vocês também sabem bem disso.
Agora vou poder falar contigo e com a mãe a qualquer momento e em qualquer lugar, pois mesmo que não queiras, vão estar sempre a acompanharem-me em todos os minutos da minha vida, vão continuar a ser os meus anjos da guarda, vou dar-vos muito trabalho como já sabem mas vão olhar por mim e pelas vossas netas eu gostavam de vocês como se fossem os pais delas.
Sabias muito bem que sou meio cético nessas coisas de espiritualidade, mas se tudo isso existir, sei que a tua/vossa presença estará sempre ao meu lado, ao nosso lado.
Vai em paz pai, agora estás junto da mãe, ambos continuam presentes entre nós e tudo iremos fazer para sorrir e pensar sempre em vós.
“Saudade é o amor que fica!” É essa saudade boa e das nossas recordações que vou deixar o tempo colocar no meu coração.



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